Cordel do Fogo Encantado
Por Carol Ferreira
Cordel do Fogo Encantado. O nome da banda já desperta curiosidade por si só. Segundo Clayton Barro, violonista da banda,
Cordel é o trabalho com a literatura oral e escrita, o fogo é o sertão das fogueiras de São João, do sol e da terra
queimada, e encantado é o profeta, o cantador. Por mais falha que seja qualquer tipo de rotulação, esta definição
corresponde bastante ao espírito do grupo. Foi numa conversa nas Galerias no centro do Recife que Lirinha, Emerson,
Nego Henrique e Clayton tentaram nos explicar um pouco mais do que é formado este amálgama de batidas e textos vindos
do sertão e como é a vida fora da capital. Só faltou Alberone, que estava em Arcoverde, mas fica pra próxima. Com a
palavra, o Cordel do Fogo Encantado.
Emerson - Cordel do Fogo Encantado é a sacação do mundo visto de nossa cidade. É mistura das raças negra, branca e
indígena, tanto nas origens dos membros quanto no estilo de som.
Lirinha - São cinco integrantes, quatro de Arcoverde, um é de Recife - do Morro da Conceição. Nós fazemos uma música
que leva você a algum lugar, que além de ser escutada tem que ser sentida, pela quantidade de batuque. É uma música que
leva você a entrar num estágio espiritual, de tirar você do normal.
Crescer e viver em Arcoverde (ou não)
Clayton - Eu nasci em Arcoverde, fui criado lá, debaixo do Alto do Cruzeiro. Estudei em escolas estaduais. O meu primeiro
encontro com música foi na escola, através de bandas marciais. Com catorze anos montei uma bandinha de rock, com uma
figura tocando violão e eu com uma bateriazinha eletrônica. Aí eu comecei a escrever algumas coisas. Fui pra São Paulo,
trabalhar em super mercado, lavando carro. Foi quando vim passar alguns dias aqui em Paulista na casa da minha irmã que
comecei a tocar violão. Comecei a tocar em bares em Recife e quando voltei para Arcoverde, passei a tocar nos bares de
lá, de uma maneira bem melhor, porque, como a cidade é pequena, as pessoas conhecem seu nome, os carros de som e as rádios
anunciam.
Crescer numa cidade pequena é ter uma infância sem malícia. Uma criança de treze anos em São Paulo tem que ter uma cabeça
adulta, pra se garantir na vida violenta de lá. É você que tem que ganhar sua grana, comprar suas roupas e se virar. Isso
força você a ter um amadurecimento precoce. Você ser criado no sertão quer dizer conviver com a natureza e com naturalidade.
Eu vivia pendurado em pé de manga, era uva tirada do pé, goiaba, passarinho cantando. Lá em São Paulo, não. Era trabalho,
frio e medo.
Lirinha - Arcoverde é a minha cidade. Nasci lá, me criei lá, e trago lembranças e influências de lá. Morei 22 anos em
Arcoverde e não faz nem um ano que estou morando em Recife.
Emerson - Morei em vários lugares, mas onde eu me enquadro é em Arcoverde. Os melhores momentos da minha vida foram
vividos lá. Se me perguntarem onde eu vivi de verdade, eu diria que foi lá.
Nego Henrique - Eu sou o único recifense do Cordel. Nasci no Morro da Conceição, rodeado de música. Desde os quatro anos
de idade eu participo de toques de candomblé. Aprendi de perto mesmo. Fui batizado duas vezes, uma na igreja e uma no
terreiro. Eu nunca fui em Arcoverde. Já quis ir várias vezes, mas os meninos não me levam. (Risos)
O encontro e o começo
Clayton - O encontro aconteceu entre Lirinha e Alberone que montaram um espetáculo teatral. Eu apareci em Arcoverde, já
tocava em bares e a gente se encontrava nas mesmas festas, porque a gente gostava das mesmas músicas. Então Lirinha me
chamou para um ensaio, pra tomar uma cerveja e conversar e aí surgiu o embrião do Cordel. Eu tinha a cabeça ainda muito
no esquema de tocar em bar e não tinha a visão musical que Lirinha já tinha. Foi quando passei a freqüentar os ensaios
que comecei a atinar o juízo para a musicalidade do meu local.
Lirinha - A ralação que as bandas tanto glorificam como um estágio necessário para conseguir as coisas, a gente já vem
fazendo no sertão há alguns anos. E como existe pouca comunicação da capital com o interior a gente ficava muito isolado.
A gente já viaja com o Cordel há três anos por cidades pequenas, fazendo teatro, mas em Recife só começamos a chamar
atenção a partir do Rec Beat de 99.
Influências e continuidade
Emerson - A gente é considerado pelos artistas populares de Arcoverde como continuadores de uma tradição, por termos
como referência a riqueza cultural da região, mas fazendo uma música nova, de nossa forma.
Lirinha - Em Arcoverde o pessoal diz "rapaz, não perca nunca as origens de vista, vá pesquisar novos ritmos". Mas isso
é perigoso e não sou entendido com isso, mas posso dizer que a gente não está afim dessa história, de ficar representando
manifestações artísticas de uma região. Nós desenvolvemos uma música original e não somos aquele tipo de grupo que chega
numa roda de coco, grava, escuta, aprende e vai cantar no palco. A gente faz a nossa própria música. As influências já
estão na cabeça e ninguém tira mais. Agora, basta trancar a gente num quarto que as músicas irão nascer.
Ritmo e show
Lirinha - A gente tem uma formação de diferentes influências, mas isso não quer dizer que uma complementa a outra. Na
verdade, na hora do show se você pudesse ir tirando microfone por microfone você ia ver que cada um está viajando na sua
onda. A nossa música é o resultado de cada um se soltando, e por isso não existe uma linha que determina que nós vamos
tocar de tal forma.
O espetáculo que a gente está trabalhando é todo pensado como se fosse uma história com início, meio e fim e acaba
parecendo com um cordel mesmo. Nós iniciamos com uma batida primeira, do toré indígena, da tribo dos xucurus. E na medida
que o espetáculo vai sendo apresentado, novos elementos vão sendo incorporados a própria batida, e se quebrando em outros.
Aí entra o coco, entra o reizado e a umbanda.
O interior na capital e o preconceito da ignorância
Lirinha - É difícil para os artistas do interior chegarem a Recife por uma questão de preconceito. E preconceito que eu
falo não é algo que a pessoa tem porque quer ter. É o preconceito da falta de conhecimento e do pouco esforço de ampliar
a visão. Eu também sou preconceituoso com certas coisas que não conheço bem. Só aí é que vai haver uma cultura
verdadeiramente pernambucana, e não recifense. O litoral é virado de frente para o exterior e de costas para o seu
interior. A prova é que ninguém sabe o que está acontecendo no sertão. Se utiliza a palavra cultura pernambucana e ninguém
sabe o que está acontecendo em Serra Talhada, em Petrolina. Ninguém sabe quem são os grupos que estão fazendo teatro, ou
desenvolvendo um trabalho musical. O papel que o Cordel veio para desempenhar foi se incorporar ao movimento da capital e
chamar a atenção para o que existe no interior. Independente de se a gente toca bem, toca mal, nós estamos sendo
importantes para a região porque estamos atraindo as atenções. O pessoal já vira os olhos e começa a atinar que existe
alguma coisa acontecendo no resto do Estado.
O trovão e a música da natureza
Emerson - Trovão é esperança de chuva.
Lirinha - Trovão é zoada. É um som natural, do céu. É uma prova que a música existe na natureza, e o homem só vem e
organiza em melodias: os trovões já batucavam, quando artistas batucaram O povo já produzia áreas de ar e poeira. O mar
nunca atrasará o compasso do batuque. Antes do peito dos mouros, antes dos gritos de gente, antes até da saudade que
viajou além-mar, do banzo dos africanos, do toré no mato verde, fogo com seus estalos, já fazia som.
Um país continental
Lirinha - Tocar em Porto Alegre foi uma loucura. A gente foi numa excursão com Otto e Mundo Livre S/A. A gente não estava
nem no cartaz, a gente entrou para abrir a noite e na primeira música o povo enlouqueceu. Foi um negócio do pessoal aplaudir
no meio da música. A gente não sabia o que esperar e algumas pessoas nos disseram que não ia dar certo, que o pessoal de lá
não ia se tocar, por causa da linguagem diferente, mas a reação foi a melhor possível. Meu irmão, o povo aplaudia demais.
Aconteceu foi o contrário, porque quando acabamos e o povo veio nos cumprimentar, a gente não entendia nada que eles diziam!
(risos gerais) Lá o povo fala muito rápido.
Clayton - Têm umas gírias legais lá. Falar bá é oxe deles.
O artista
Lirinha - Se eu fosse me definir através de uma poesia, eu acho que seria com uma quadra de Inácio da Catingueira, um
cantador escravo de senzala mesmo, que nasceu dois anos antes do aclamado "poeta dos escravos" Castro Alves. E ele
cantando um dia disse:
"Meu viver é misturado de sofrer e de alegria
Sou escravo no roçado, mas sou rei na cantoria."
Operação Mandacaru
Lirinha - O que acontece com o Sertão é que, por esta falta de conhecimento e preconceito que também diz respeito à
política, a região é vista como uma ferida. Então ficam-se providenciando uns tratamentos de curativo. O problema da
água já virou quase um mito e parece que se está tirando onda com o assunto. E a questão não é nova como às vezes querem
que se acredite, data da época de Dom João VI quando o governo propôs pela primeira vez um projeto de transposição das
águas do Rio São Francisco para as áreas afetadas pela seca, que hoje é a adutora de Jatobá. O estado é totalmente ausente.
O cidadão do sertão se sente um órfão, não vê presença nenhuma do Estado. A presença do Estado é cesta básica quando a
seca está foda, e agora esta história da operação mandacaru, que mandam um monte de policiais pra tirar o pão dos
agricultores. O plantio da maconha é ilegal e o Estado tem que combater. Só que eles têm que chegar lá em outros momentos
também. Se eles fossem com uma caravana, fazendo projeto de agricultura, de saídas e alternativas para a região, seria
diferente. 45 mil famílias vivem do plantio da maconha e quando sua plantação for destruída vai ter que viver de vento.
Se hoje, metade do dinheiro que circula no interior é ilegal, a culpa é da ausência do estado que não está nem aí.
Clayton - Esta ação da polícia e do exército no sertão é uma grande maquiagem. O governo é cobrado da sociedade, faz
repressão, mas não erradica o problema. O sertanejo é tratado como uma raça podre, num estado de total abandono, morando
em casas imundas, sem saneamento básico, morrendo de doença de chagas. Crianças morrendo de sarampo.
Lirinha - O exército vai em comboio e passa buzinando de noite pelas estradas, uma coisa ridícula. Os bandidos de verdade
vão tudo embora, tiram férias, enquanto ficam prendendo agricultor. O governo deveria estar se ocupando com a implantação
de processos de transposição de água e de irrigação. Tem que ir atrás de destruir pé de maconha mas não pode ir embora e
deixar o povo de bobeira. O povo vai ficar fazendo o que depois?
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