Cordel do Fogo Encantado
Por Carol Vergolino, Dani Acioli e Marina Caminha
(14/12/2001)
Com a fé no mundo e de volta a Recife, a banda Cordel do Fogo Encantado deságua um punhado de estórias. Causos sobre a
viagem, a perda da palavra e o desejo incondicional de levar a música aos ouvidos do público. Meteram até a zanga de Deus
na conversa.... A Ponte foi ouvir, num barzinho/casa em frente ao estúdio, que eles ensaiam, os novos cordéis da turma.
O show no grande Teatro
Lirinha - Esse espetáculo que a gente vai fazer aqui agora é uma opção nossa como uma celebração de tudo que aconteceu
desde o lançamento do primeiro disco. Então a gente não podia deixar de forma nenhuma de fechar o ciclo deste espetáculo
que foi o Cordel do Fogo Encantado, que a gente vem apresentando há um tempo, desde Arcoverde.
Então a idéia é que seja uma celebração, um acontecimento que tenha o teor de uma festa. Que a gente reúna as pessoas que
já conhecem o grupo e algumas pessoas que não conhecem, já ouviram falar e a gente fecha essa turnê de 2001 que foi
extremamente marcante na vida do grupo.
Fecha essa turnê num espaço que, até então era destinado a grupos com muito nome, com carreira consolidada. E
principalmente a grupos que não são de Pernambuco, com exceção de Lenine e Antônio Carlos Nóbrega, que já se apresentaram
no Guararapes, mas eles têm uma carreira muito mais consolidada do que o Cordel. E é meio que alugar o teatro para quebrar
um mito de que as bandas pernambucanas não conseguem juntar um público. E a gente tá tentando fazer essa festa.
Música se comunicando com mais gente
Lirinha - O lançamento do disco foi no Teatro do Parque. E aí o que aconteceu no Teatro do Parque? É. Ocorreu um problema
de superlotação e um problema na portaria e que muita gente acabou voltando para casa. E a gente pensou a princípio em
fazer num lugar maior e esse lugar é o Guararapes. Ao mesmo tempo o Guararapes é muito elitizado, mas ao mesmo tempo a
gente veio com uma idéia de jogar com essa elitização. Ora, elitizado porque os grupos que vêm para cá colocam os ingressos
a um preço muito, muito alto.
Clayton - A um preço que é anti-popular ... R$ 60,00... e a gente trabalha mesmo numa forma de levar música ao povo, a gente
quer que o povo venha. Então o ingresso é R$ 10,00, R$ 20,00. O CD é R$ 15,00. A gente não procurou no nosso trabalho
visualizar uma condição financeira imediata. Mas que ele se estenda às pessoas de uma forma mais acessível.
Lirinha - A nossa riqueza maior tem sido até então o número de pessoas que conhecem o grupo pelo disco.
Clayton - A gente lançou 10 músicas na Trip sem nenhum ônus com objetivo de divulgar. Para fazer com que as pessoas
comprassem a revista por R$ 7,90, como era o preço da revista. E foi com 10 músicas, ou seja, com a metade do disco.
Lirinha - Quando lançaram a proposta de 10 músicas todo mundo que cercava a gente. Inclusive, mais experientes disseram que
a gente era doido. Entregar um disco produzido por Naná Vasconcelos à revista... entregar 10 músicas, cara! Sem ganhar
nenhum centavo por essas músicas. E desde aquele tempo que os cinco integrantes diziam muito assim entre a gente: que a
maior riqueza que a gente poderia ter era a música da gente se comunicando neste mundo que a gente vive, com a geração que
a gente está circulando. E aí o que aconteceu? A revista teve uma tiragem de 70 mil exemplares.
APCA e outras coisinhas mais
Lirinha - O prêmio APCA, ontem(quarta) à noite.
Clayton - E mais um prêmio pelo clipe ontem....
Carol Vergolino: e mais um hoje.
Lirinha - Foram muitos prêmios. Mas foi o primeiro prêmio oficial, esse da APCA. O resto foi ligado ao clipe. É o
reconhecimento do trabalho, mesmo.
Clayton - É reconhecimento do trabalho. Como aconteceu quando a gente foi tocar no Free Jazz. Chamaram a gente pelas
coisas que a gente vinha fazendo, tocando em vários lugares. Como eu costumo dizer: contaminando o público com a nossa
música. Um amigo leva o outro. Uma pessoa compra o disco e já mostra para outra pessoa. Isso faz com que as pessoas sejam
levadas ao espetáculo, falem sobre a gente, comentem sobre a música. Boca-a-boca é muito forte.
O ano de imortalizar idéias
Lirinha - Este ano tiveram algumas coisas que foram muito marcantes na vida da gente. Muita coisa da primeira vez, do nosso
primeiro registro. O primeiro registro de um artista é uma coisa que marca muito porque é o momento que você imortaliza
suas idéias. No caso da música, o disco, no caso do escritor, o livro. Esse ano teve isso.
Teve também a experiência com a câmara... mais de um dia para gravar um clipe. Teve o lançamento do disco em vários lugares
e que a gente emendou com Naná Vasconcelos e consolidou uma amizade e teve essa viagem para o exterior.
O poder da palavra
Lirinha - A gente passou pela Alemanha, França e Bélgica, foi um marco na vida da gente porque foi o primeiro momento que a
gente perdeu uma das nossas armas que era o conteúdo da poesia, a palavra.
Então o que aconteceu foi uma descoberta de que na ausência de algumas coisas, outras ganham um significado maior. A nossa
música, que a gente ainda tinha muitas dúvidas sobre como ela funcionava no mundo, a gente descobriu que tem uma potência de
comunicação muito grande. E que a própria poesia, a forma que ela é composta e interpretada, tem uma musicalidade, é uma
música que até então a gente não sabia.
A gente tirou as poesias que eu digo sozinhas do espetáculo, mas deixou aquela Ai Se Sesse e Cordel Estradeiro, que tem uma
música por trás. E as pessoas falavam: naquela hora que você estava cantando só... "Se um dia nós se gostasse..." (Lirinha
começa a recitar).
Eu nunca tinha percebido que era como se eu estivesse escutando Rehc Rahd Nan nan nann.... (risos). É uma música, uma
melodia que eu nem sabia que aplicava a interpretação. A ausência da palavra fortaleceu outra área da vida da gente que a
gente ainda era muito menino, que era essa coisa da música ainda estar surgindo na vida da gente.
Sair pro mundo é isso aí: são experiências, desenvolvimentos, alargar pensamentos, quebrar fronteiras e principalmente se
relacionar com pessoas que não lhe entendem. E isso é fundamental na existência.
Clayton - É como falar de saudade em países que essa palavra não existe, ela é totalmente brasileira. A música, a forma que
a gente se apresenta de sensações, sentimentos fez com que a palavra não deixasse de ser importante como ela é, mas que o
resto dos nossos elementos fossem também destacados e comunicativos.
Lirinha - Em vários momentos os significados de alguns sentimentos contidos nas letras das poesias eles eram passados.
Sentimentos que existem em qualquer cultura por serem sentimentos humanos assim como medo, desejo, amor, saudade. Essas
coisas a gente conseguia passar através da nossa pancada e da nossa expressão e aí as pessoas ficavam tristes, ficavam
alegres, mesmo sem entender.
Clayton - A palvra que ouvi muito foi heavy sound, duas palavras que as pessoas diziam, I'd like heavy sound, som pesado,
som muito pesado. Que é, né? Aquela coisa se você for ver direitinho, eu nunca assisti a um show da gente, mas acredito que
dá pra balançar os órgãos, deve causar alguns arrepios, outras coisas.
Quem sai da terra natal noutros cantos não pára
Lirinha - Na verdade, pra gente tá sendo tudo uma grande novidade, sabe? A gente tá muito consciente de que a gente só colhe
o que planta, que a trajetória quem traça é o grupo. Também sabemos que esse sucesso é resultado de um trabalho e essa
consciência vem acalmando as questões ligadas a estar muito no mundo. A gente sabe que estruturando uma base, a gente
poderá construir um prédio muito alto. Mas sem uma base estruturada poderemos até construir um prédio muito alto mas que
cairá muito rápido.
Então a gente tá muito calmo nesse sentido, em relação ao nosso envolvimento em ter saído de Arcoverde, eu sempre pensava
naquela cantiga que quem sai da terra natal noutros cantos não pára. Eu entendi mais isso agora, que a dificuldade foi sair
de Arcoverde, depois que saímos...
Clayton- Os outros mitos caíram, as outras barreiras também. A gente já levava isso mesmo de expansão. E tem mais, onde a
gente se dirigir, se as portas não tiverem abertas a gente vai lá e abre mesmo. Bota o show na rua. Se ninguém contratar a
gente, vai e aluga um teatro e fica com a bilheteria.
Lirinha - A gente fez isso em Brasília, botou 2.500 pagantes. O dinheiro que a gente ganhou foi o do som, das passagens de
avião e do aluguel do hotel. Mas a gente fez, 2.500 pessoas e vai voltar agora de novo. Foi um show produzido pela gente
igual a esse que a gente tá produzindo agora no Guararapes. Todo produzido de São Paulo, ainda mais teve essa dificuldade:
aluga o lugar, bota o som e tal, por que ninguém contratava o grupo.
Em Brasília a gente sabe que tem um público, então pô vamos fazer. Quando a gente tava parado em Arcoverde a gente saía e
fazia um show em Sertânia. Então esse sentimento de se comunicar e também o sentimento de não dedicar a existência e toda
competência artística, todo o talento que todo mundo tem dedicar a reclamar. Reclamar que o governo não apóia, que a
prefeitura não apóia, que não sei quem não apóia. A gente dedica toda essa reclamação pra pegar e fazer um espetáculo.
Colocar na rua de algum jeito.
Os discos, composições e liberdade
Lirinha - A gente já tá trabalhando um novo espetáculo, tá trabalhando novas composições. E o tempo que estamos passando em
estúdio agora está sendo mais voltado para essa coisa de novas idéias, de músicas e poesias que surgiram depois desse disco
que a gente gravou.
Esse primeiro disco é a história de Arcoverde. A maioria das músicas foram compostas quando a gente ainda morava lá. Esse
disco em algum momento da vida da gente a gente não pôde gravar e agora nesse ano é que a gente pôde lançar, só que o
espetáculo já existia há um tempo, certo? Aí esse ano a gente conseguiu lançar.
Clayton - Em 99 esse disco estava pronto mas a gente amadureceu tocando, ao contrário de algumas bandas que já entraram de
cara com o disco. Nós não, entramos com o espetáculo e aí isso sim fez com que as músicas não ficassem precoces.
Lirinha - A forma de compor da gente é muito aplicada numa idéia de liberdade. É dessa forma que a gente compõe,
principalmente os arranjos. Todos os integrantes colocam pra fora seus elementos pessoais, isso é uma herança do teatro.
O Cordel não é um espetáculo que se dedica à pesquisa musical conscientemente. Isso porque a gente não destina a nossa
existência musical para uma coisa de resgate ou releitura de sons existentes, embora a gente sempre vá fazer som de coisas
que já existiram. Já que a música é composta dessa forma, o próximo disco vem carregado de elementos que a gente vem
escutando, de sons, dessa zoada rápida de São Paulo e com certeza o que a gente ouviu no exterior estará no disco. O que
ocorre é que a gente ainda vai trabalhar com percussão e um violão, não saindo da estética conceitual do espetáculo.
Uma vontade de fazer trilha...
Lirinha - Eu era louco pra fazer trilha mas ninguém me chamava, eu ficava muuuuuito triste (risos). Cacá Diegues viu um
show no Rio e foi falar com a gente e propôs. Só quem convidou foi Cacá Diegues. E aí o povo fica: só Cacá Diegues?
(risos).
E aí foi maravilhoso fazer porque a idéia que ele passou é uma música que está incluída no sentido do filme. A música
ocupa um momento do filme que se não existisse a música, existiria um texto. Porque é um momento que Deus se toca de
determinadas coisas que são importantes para o filme tomar outra direção. Então a música entrou na íntegra e ela dialoga
com os personagens.
Eu fiquei enlouquecido e entreguei em uma semana. Na verdade porque eu tinha um problema grande com Deus. E o filme era
isso. Eu tenho mesmo é problema com Deus
Uma butada em Deus
Lirinha - Eu venho de uma família muito religiosa. E Deus, esse Deus de Dante, que era justamente o que ele estava falando
no filme, que é o Deus de barba branca, Antônio Fagundes.
Clayton - O Deus que está julgando, escrevendo os meus pecados. E haja tinta e caneta.
Lirinha - Então alí era uma oportunidade de dar uma butada nele. Fiquei muito feliz com essa possibilidade. A música conta
a historia...
....Eu sou um anjo caído
Os homens são homens caídos
Que deus mandou pra terra
Porque botaram defeito na criação do mundo
Aqui começaram a inventar coisas A imitar Deus
E Deus ficou zangado, mandou muita chuva e muito fogo
Eu vi de perto a sua raiva sacra
E foram sete dias de trabalho intenso
Eu vi de perto
Quando chegava uma noite escura
Só meu candeeiro é quem velava o seu sono santo
Santo que é seu nome e seu sorriso raro
Eu voava alto porque tinha um grande par de asas
Até que um dia caí
E aqui estou nesse terreiro de samba
Ouvindo o trabalho do céu
Aqui estou nesse terreiro de guerra
Ouvindo a batalha do céu
Nesse terreiro de anjos caídos
Cá na terra trabalho é todo dia
Levantar, quebrar parede, matar fome, matar a sede
Carregar na cabeça uma bacia.
E esse fogo que a sua boca envia
São mensagens pra nossa criação
Ah, Deus, esse terreiro de anjos... Ah, esse errar que é sem fim
Essa paixão que é tão gigante e esse amor que é só seu.
Esperando você chegar...
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