Lirinha
Do repente ao Fogo Encantado



Por Valéria Vicente
(20/02/2002)


Alguns dias antes do carnaval, Lirinha - cantor e compositor do Cordel do Fogo Encantado - me recebeu após um ensaio. A idéia era ampliar o debate sobre cultura popular, fazendo sentar neste Tamborete pessoas que trabalham diretamente ligadas às culturas populares. Saber o que pensam, como se relacionam com as diversas expressões artísticas, como lidam com as relações entre cultura popular e indústria cultural e como esses discursos interferem e estão presentes no seu trabalho. Só após saber o conteúdo da conversa, Lirinha topou dar um intervalo nos ensaios e na criação do espetáculo que estrearia no Rec Beat. Quando a pauta acabou continuamos conversando e saímos com a impressão de que ainda havia muito mais o que se discutir. Inquieto com a idéia de ter que se manter no estilo que consagrou o Cordel do Fogo Encantado, Lirinha prefere viver as mudanças de cada momento. Ele tenta desfazer alguns estereótipos sobre o seu trabalho e garante que a banda está disposta a não deixar a idéia de resgate e valorização da tradição interferirem no processo de criação.

Infância de cantador

Lirinha, você recita e compõe poemas desde criança, não é? Como você começou? Seu pai também era poeta...

Eu tive contato com os cantadores, violeiros, repentistas primeiramente através dos meus familiares. O meu avô, pai do meu pai, era uma pessoa que promovia muitos esse encontros de repentistas no lugar onde ele morava, na Lagoa de Dentro, lá aconteciam as cantorias. Não é como um festival. Você chama uma dupla e eles passam a noite toda improvisando. Existe uma bandeja onde as pessoas colocam dinheiro quando vão dar os motes ou mesmo sem sugerir mote. É uma forma muito antiga, como eles desenvolvem essa profissão. E eu tive um contato primeiro com os cantadores e depois com a descobertas de leituras, isso não era uma coisa da família porque nem meu pai nem ninguém próximo tinha essa relação com a leitura de poesia. Eu lia o que viesse na minha mão.

E então você ainda criança começou a decorar os versos

É aí com nove anos eu recitei uma cantoria. Depois, quando eu já tinha 12 anos, um poeta chamado Ivanildo Vilanova me chamou para participar de um encontro, o 4.º Festival de Repentistas que ia ter aqui no Teatro Guararapes. E aí eu não parei mais de viajar com os cantadores.

Não eram parentes seus?

Não, mas era uma família própria. Os cantadores costumam criar laços fortes, até pela especialidade da profissão. Se viajava muito, alguns cantadores eu via mais do que meus parentes.

Você morava com seu avô?
Não, eu sempre morei no centro de Arcoverde. Eu e todos os integrantes da banda temos uma vivência muito urbana. Sempre tivemos televisão, essas coisas de classe média. Meu pai também não fazia parte da parcela pobre da cidade. Não temos essa ligação com a arte feita por fiéis representantes da tragédia que é ser artista no sertão.

Então como era essa relação de ter uma família classe média e estar envolvido com os cantadores?

Meus pais achavam estranho. Como todos os pais, eles desejavam que o filho seguisse aquelas profissões que a maior parte da população acha mais dignas. Eu tive os problemas normais que todo artista enfrenta, mas sempre fui muito apoiado. Eu só fui me afirmar mesmo enquanto artista quando eu descobri o teatro, mais ou menos com 15 anos, e foi fundamental no sentido da quebra das correntes e de uma porção de preconceitos. O teatro é revolucionário por si mesmo. Quem fez teatro uma vez sabe do que eu 'tô falando. São muitas artes envolvidas e há uma entrega muito grande e até uma relação transcendental com a existência. Essa coisa de assumir outras personalidades.

O teatro mudou sua vida...

É, até porque vivendo com os cantadores eu vivia em prisões muito fortes. Eu era praticamente proibido de escutar musica estrangeira. Não por eles mas pela característica intelectual que cerca os cantadores.

Não existia a proibição explicita, mas existia um consenso lá dentro de que era melhor não escutar, é isso?

É, totalmente. Nos versos, coisas do tipo "deixa essa guitarra de lado, o som da sanfona é mais bonito". Ou "enquanto tiver homem rebolando rock'n roll esse mundo não vai pra frente". Várias coisas ligadas a um pensamento fechado, mas mesmo assim maravilhoso. Até hoje eu tenho uma ligação muito estreita com eles e com a cantoria mas não posso negar que é um elemento que poda, fecha possibilidades de nossos sonhos.

Popular e tradicional:

"se a gente se fechar só com a tradição a gente pode pagar muito caro"

Você já pensou que em outras condições, ou seja, sem a cultura popular ter sido assimilada por uma cultura mais pop, sua carreira poderia ser muito diferente. Em vez de ser conhecido da juventude, seria tese de pesquisa ou ícone do folclore

Talvez, mas é um pensamento que logo morre. É, eu acho que teria mesmo seguido essa profissão de cantador, um violeiro - acredito que um dos melhores (risos).

Existem pessoas entre esses cantadores que você gostaria de ter levado junto com você pro teatro, pessoas que poderiam ganhar outro tipo de destaque artístico?

Ah, claro que existem. Mas acho que a própria vida é que dá os caminhos. De qualquer forma é necessário que existam esses poetas, são idéias diferentes. O que eles fazem é tão digno quanto o que eu faço, é tão cheio de verdade como o que o hard core faz. A trajetória do artista é muito pessoal.

Fala um pouco mais da tua relação com a Literatura de Cordel

Não era necessariamente Literatura de Cordel. Na verdade, o nome Cordel não fez parte da vida da gente. Eu vim saber mais da Literatura de Cordel agora com essa homenagem que fizeram em São Paulo, aos cem anos de Cordel.

Não era exatamente Literatura de Cordel a que eu tinha acesso, apesar de ter uma estrutura parecida. Não eram os grandes mestres - eram outras poesias, inclusive de poetas que não chegaram até hoje a escrever um livro. Eram pessoas que faziam poesia de improviso e alguém datilografava e ia passando esses papéis.

Também a palavra Cordel não era utilizada pelos poetas. Hoje é porque eles foram convidados para palestras, foram para São Paulo... Mas não era. As pessoas diziam: "fiz um folheto, fiz uma poesia, um romance, um poema:. Eles se chamavam de folheteiros. A palavra Literatura de Cordel é uma definição para livros que o pessoal fazia e pendurava em cordões e vendia nas feiras. E tem toda uma regra: quantidade de partes, métrica das rimas, as páginas terminam em par,etc. A palavra Cordel veio mais de intelectuais e não deixa de ser uma palavra pejorativa. Tem um grande folheteiro chamado Orlando Tejo, que é um grande amigo meu e mora no Bongi, que diz: "Cordel? Nunca escutei isso na minha vida! Vim ouvir isso aqui com Ariano Suassuna".

E outra ilusão que se tem é com a xilogravura - que é uma coisa recentíssima. Os primeiros cordéis que saíram, a capa era a palavra e umas molduras. Depois vieram as fotografias de cinema, aquelas fotos de beijo. Depois veio a xilogravura, lá pra década de 60, e a idéia que a gente tem é que a xilogravura é uma coisa "tradicional" - o que prova que a tradição é uma coisa que toda vida está sendo criada e que se a gente se fechar só com a tradição (o antigo) a gente pode pagar muito caro, porque na verdade se o cordel tivesse se fechado não teria surgido a xilogravura. O grandes mestres da xilografia são vivos e jovens.

Religiosidade na cena:

"esses elemento que a gente invoca, eles existem de uma forma muito importante pra gente que tá ali"

No palco, você parece estar rezando o tempo todo. Agradecendo, louvando, clamando, você faz muitas ações que lembram oferendas religiosas. Como é a tua relação com a religião? Das coisas que você faz no palco, o que é encenação?

Essa primeira história do Cordel do Fogo Encantado tem uma relação muito forte com esses elementos místicos, com essa coisa do encantado, uma idéia da presença desse encantado na consciência nossa. No palco, temos uma história com esses símbolos. É uma invocação de verdade, mas há também uma interpretação no sentido da representação que o palco dá em que tudo, com outros valores. Algumas coisas são ampliadas, outras reduzidas. Naquele momento do palco, do desenvolvimento do espetáculo, esses elemento que a gente invoca existem de uma forma muito importante pra gente que tá ali. Mas na verdade eu não sei responder essa pergunta, eu enrolei

Percebi. Na verdade você está jogando para a banda uma coisa que é muito pessoal também, não é?

É complicado. Ontem eu tava conversando sobre qual seria minha religião e isso sempre foi complicado pra mim. Na verdade, eu resolvo muita coisa minha no palco. Eu tive uma relação muito forte e muito difícil com o Deus Dantesco. Essa forma de encarar o mundo, esse conflito com o mundo acompanha um pouco a minha vida. Eu vejo esse primeiro espetáculo do Cordel do Fogo Encantado como uma tragédia. Na tragédia, a gente começa a expressar os sentimentos, o desejo humano, o conflito e tudo acaba como os deuses queriam - não tem jeito, não muda. Pensando assim como tragédia eu consigo entender melhor o que acontece no palco. A gente começa na expressão de tudo isso que a gente deseja e tem medo, a gente humaniza a santa - "suor de santa", "a vela acesa", "a língua hóstia consagrada". Depois "Oh, Joana imaginária, permita que o conselheiro encoste sua cabeleira no teu colo de oratória". Mistura a sexualidade com a religião. Então existem muitos conflitos, mas como se fosse um castigo, tudo acaba na morte. Então o espetáculo é praticamente uma tragédia. Continuo sem responder. Eu quero que você escreva "eu não sei de nada".

Com a entrada de Nego e Rafa, o Cordel ficou trabalhando com duas expressões diferentes da música de terreiro. A umbanda do sertão e o candomblé dos morros do Recife. Como foi esse processo, que frutos rendeu?

A gente já falava, pensava e até fazia um pouco dessa percussão africana forte que o Nego e o Rafa trouxeram. Porque a música que a gente imaginava tinha isso, e era uma relação com o som - é bom deixar claro. Eu freqüento a umbanda, freqüentei igreja católica, mas não era ali uma relação religiosa. Nada no Cordel tem a intenção de ser uma oração para qualquer religião. Quando a gente chegou em Recife a gente tava com um buraco porque o integrante que tocava essa percussão saiu. Aí Marcelo, percussionista da Mundo Livre S.A indicou o Nego. A gente já fazia essa junção, mas não com essa qualidade, porque eles são de dentro do terreiro.

Tradição: Limites para a criação?

"As pessoas dizem 'pelo amor de Deus, não percam a essência', mas fica complicado pro Cordel"

O trabalho artístico ligado à cultura popular tem um ritmo próprio, menos estressado. As pessoas costumam ter tempo livre, realizar vários encontros, aquela coisa meio família que você devia usufruir lá em Arcoverde. Como é que está sendo "criar" com uma agenda tão ocupada de turnês e shows?

Eu nunca tive uma relação harmônica com a criação. É uma relação de muito conflito. Quando eu tô criando é um período muito tenso, até de angústia. Também o Cordel tem a característica de sua composição nascer da liberdade de seus integrantes. Parece um jargão, mas é real como forma de nossa criação. Ocorre que a forma que a gente tá naquele momento vai pra composição. Esse novo disco vem carregado dessas paisagens de São Paulo. Não na letra, mas na postura do som. As pessoas dizem "pelo amor de Deus, não percam a essência", mas fica complicado pro Cordel, essa coisa de manter aquele som que estava no primeiro disco. Fica complicado porque a forma de composição da gente é muito resultado do que está à nossa volta. Ela vem carregada de elementos do que a gente viveu nesse último ano, a experiência de São Paulo e a viagem ao exterior. É tanto que nesse novo show a gente abre o espetáculo com uma vinheta gravada no metrô de Paris, com a voz de um mendigo alemão pedindo esmola. Aquilo me chocou muito porque ele dizia que tinha perdido a família na guerra e estava pedindo esmola. Antes a gente abria com um aboio, gravado do mesmo jeito, com um gravador de mão.
Vocês não têm ou tiveram receio de sair desse mercado de cultura popular, de músicas ligadas a raízes? Vocês já pensaram nisso?

A gente tem uma série de problemas com essa coisa de raiz. Eu vou falar no meu nome mas, a gente no grupo comunga muita coisa nesse sentido. É uma coisa muito estranha essa coisa do resgate, parece com uma repressão. O Cordel não se estrutura dessa forma, apesar de ser carregado de códigos da cultura popular. Vamos usar essa palavra, embora eu tenha uns problemas com ela. Naquele momento, o espetáculo foi todo concebido em Arcoverde. Passei 22 anos da minha vida em Arcoverde, então os sons que a gente escutava naquele momento eram aqueles de lá. Então a composição daquele momento só podia estar carregada daquelas imagens. A gente começou a fazer a música e as pessoas começaram a cobrar pesquisa nossa e tal e a gente começou a questionar isso dentro do grupo - pesquisar, não pesquisar - e a gente sabe que tem grupos que pesquisam pra caralho e que é muito bonito o trabalho deles, como o Mestre Ambrósio. Grandes ritmos, pesquisas grandiosas. Mas o nosso espetáculo não tinha saído de pesquisa. Os Xucurus, por exemplo, a gente fala dos Xucurus e trouxe os ritmos Xucuru para o trabalho da gente e até hoje as pessoas perguntam se a gente conviveu com os Xucurus. Não, eu vi os Xucurus pela primeira vez numa ocupação na sede da FUNAI, numa intervenção na minha cidade católica. Eu ia passando à noite e vi um Toré (ritual indígena) numa madrugada maravilhosa. A gente nunca foi na aldeia, mas dizemos "Salve o povo Xucuru" porque aquele momento foi especial pra gente.

Então vocês nem são autênticos populares nem foram pesquisar as raízes do local...

Pois é. Esses elementos de pesquisa, de resgate são difíceis pra gente conviver com eles, carregar esses rótulos. Por ser de Arcoverde, a gente, antes de escutar o som, já leva o nome de regional, popular e tradicional. São pensamentos que envolvem todo o Sertão. Pra mim - eu li pouca coisa sobre isso - mas o que eu entendo, como a definição de popular dos intelectuais, é de uma coisa feita por gente pobre. Isso porque Selma do Coco é popular e Alceu Valença não, Cordel não e Mestre Salustiano é popular. O que é popular, é por que fala errado? Eu já li coisas assim: é porque faz mas não sabe. Na coleção Primeiros Passos diz que é como um pedreiro e um engenheiro. O engenheiro fazia mas tinha estudado e o pedreiro fazia mas não tinha estudado. Então seria isso a cultura popular, a falta de estudo? Questiono tremendamente essa definição e muitas outras que vêm com ele como tradicional, regional. Essa história de tradição é querer congelar o que nunca se congelou. Falam que a gente não pode mexer no que Luiz Gonzaga criou mas ele mesmo só introduziu o triângulo (que dizem ser um dos três pilares do forró) no terceiro disco.

Faz essa ligação, com a situação do Coco Raízes de Arcoverde, que é um grupo ao qual você é muito ligado e além de ser de tradição popular e que tenta ocupar um espaço no mercado musical.

É muito complicado para eu falar do Coco. Fica muito difícil pra eu dizer que o Coco não saia, porque eu saí. O que eu vejo é que há uma idéia muito errada, de que o palco é uma evolução da rua, de que o palco seria um degrau a mais do que é feito na rua - coisa que o teatro felizmente já ultrapassou: existe o teatro de arena, de rua, e existe teatro no palco à italiana. Na música isso é meio confuso porque o palco gera um determinado poder. Você está mais alto, mais iluminado e a sua voz está acima de qualquer outra. Então as pessoas pensam que o palco é uma evolução - e isso não é verdade. Na verdade, o Coco trocou uma possibilidade por outra - isso eu não acho errado - é uma opção do que eles querem e com isso eu não vou nunca me intrometer, no que eles querem fazer.

Você já pensou em dar uma força, em indicar eles pro Rec Beat

Bem, Guti ia colocar eles no ano passado, mas não rolou, são coisas de Guti. Em relação ao Rec Beat, Guti é muito egocêntrico, ele é quem decide. No máximo a gente indica um som, mas pra ele escutar. O Rec Beat é bem ele. Eu acho isso muito bom isso da parte dele.

Vou falar mais do Coco. Eu conheci o Coco de Arcoverde tocando em festas, aniversário, uma celebração de alguma coisa. O coco surgiu no passado, como música de trabalho. Eles cantavam enquanto iam construir uma casa, então tinha uma função. Mais tarde isso mudou e eles começaram a cantar em momentos de confraternização e passou a ter uma função subjetiva, artística, e eles começam a se apresentar, a ganhar dinheiro, a se organizar, a diminuir as pausas, a fazer um repertório de hora e meia, a microfonar os sons. Então tudo muda, é outra estória, é outro espetáculo. Levar aquilo para outros ambientes gera dificuldades. No chão, o Coco tem seus domínios. No palco, suas dificuldades, que vão sendo superadas até porque é um talento grandioso que eles têm. Mas essa discussão é porque algumas pessoas pensam ser perdidos elementos fortes no palco. Isso acontece com todo mundo. Você perde uns e ganha outros.


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