CORDEL DO FOGO ENCANTADO
Uma identificação para a meninada



A entrevista com Lirinha revela agora a importância da cantoria de viola para a sua formação e para a inventividade do Cordel do Fogo Encantado
(20/10/2002)


Vocês surgiram como um espetáculo cênico, em 97... Como era essa fusão de teatro, música e poesia?

Lirinha- É, Cordel do Fogo Encantado era o nome do espetáculo, o grupo ainda não tinha nome. O espetáculo não era considerado uma peça de teatro porque a gente trabalhava com microfones, pedestais, monitor, toda aquela aparelhagem de show que quebrava aquela característica de teatro convencional. E também como a gente não era personagem, como entrava a gente mesmo para tocar, também acontecia isso de não se caracterizar de teatro mesmo. Quando aconteceu essa idéia, à princípio era um espetáculo de poesia. A música serviria apenas para ligar estas poesias. O que aconteceu foi que a música foi ocupando um espaço cada vez maior, a descoberta que aconteceu na vida da gente da possibilidade da composição foi uma coisa que modificou muito a nossa vida, então a gente começou a compor mais... Naquele momento, a gente tinha uma sede, uma fome muito grande de características peculiares da nossa identidade, por isso essa ligação com o som da nossa região. A versão que eu faço hoje é que naquele momento também estava acontecendo o processo mais forte da globalização no mundo inteiro e as pessoas estavam se sentindo tão iguais que elas corriam atrás daquelas características que tornavam-nas diferentes perante o resto do mundo. Essa busca dessa ligação com as nossas características mais pessoais aconteceu em Recife e também com a gente, em Arcoverde.

Aí vocês procuraram ir por uma sonoridade acústica que enfatiza elementos mais arraigados, como a cantoria sertaneja e as percussões, com uma batida não tão próxima dos maracatus e do rock, como o pessoal de Recife fez no Mangue Beat...

Lirinha - Na verdade, nós ainda estamos formando esses pensamentos. No caso do Cordel, essa identificação não foi fruto de pesquisas. Acontece, vamos dizer, uma deficiência de conhecimento entre os integrantes do Cordel, em relação às origens das coisas, à reprodução tradicional de um determinado som. Eu acredito que a característica mais pessoal do Cordel do Fogo Encantado é a de invenção, de criação. Isso não torna o grupo superior, nem inferior aos grupos que pesquisam. À princípio a nossa formação, sem baixo e guitarra, foi uma necessidade. Não tínhamos quem tocasse esses instrumentos. E aos poucos, isso foi se tornando uma característica nossa, procurando sempre dar atenção a um som original e de afirmação cultural.

Vocês se preocupam, então, em adaptar essas tradições musicais e poéticas, que se fundamentam na cantoria, embolada, reisado e até no toré?

Lirinha - Olha, a gente entrou em várias discussões, desde que saímos de Arcoverde, sobre o que seria esse resgate, essa produção tradicional e tal. E o grupo hoje tem um pensamento bastante ligado a relaxar mais quanto a essas questões de fórmulas, de ritmos já existentes e a intenção nossa é cada vez mais procurar um som que não tenha fórmulas, que seja um som mais livre e composto pelas nossas sensações. Agora, para isso também se paga um preço de estar compondo um disco como o atual, em que a gente tem grande dificuldade de saber como dançar e saber que ritmo seria esse que a gente está fazendo. O Cordel começou a relaxar nessa questão a partir de nosso contato com setores de pesquisa musical e que a gente tinha deficiência. Na verdade, a gente conheceu a aldeia Xucuru, que a gente sempre fala, quando eles ocuparam um prédio público da nossa cidade, cobrando um olhar para o problema de terra deles. Não fomos na aldeia. Ocorreu um encontro dentro dessa confusão do mundo que a gente vive. E aí a gente viu uma música muito forte, o toré, que a gente ia lá brechar da janela e ficava viajando numa música de tamanha beleza, de tamanha plástica. Então, o Cordel tem essa característica diferente da música de Recife que tem uma pesquisa forte e competente.

No seu caso, essas referências a cantadores como Inácio da Catingueira e tantos outros são mais nítidas, já que você acompanhou os cantadores...

Lirinha - É, essa coisa da poesia é mais uma ligação minha. Eu viajava com os cantadores, recitando nos intervalos deles. Viajei com Ivanildo Vilanova e ele dizia que eu deveria ser cantador, principalmente por conta da minha memória. Orlando Tejo também me incentivou bastante. Mas na verdade eu fiz teatro na adolescência, e isso desvirtuou um pouco. A cantoria era maravilhosa, devo tudo o que tenho hoje ao que aprendi com os cantadores, mas ela era uma prisão, a questão de como era proibido escutar uma música que não fosse do país, ler a poesia sem rima também, como eram agredidos poetas como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral etc. E agora o que aconteceu é que o cantador se profissionalizou, nesses festivais de viola, coisa que na época de Inácio da Catingueira, de Zé Limeira, de Lourival Batista, desse pessoal, eles não tinham hora para terminar a cantoria, eles bebiam muito, ganhavam muito pouco, eles faziam isso por paixão. Quer dizer, criticar que a cantoria se elitizou talvez seja a visão de quem está de fora. Eu não sei o motivo que eles tomaram. Eu sei que hoje a cantoria vive essa geração de festival de violeiro, fazendo os "balaios". Então, no meu caso, a minha família era de apologista, organizava muitos encontros de violeiros, então eu via muito essa cantoria e tinha muita facilidade de decorar. Ivanildo se impressionou com isso e me levou para o IV Congresso de Cantadores de Recife, em 1989, eu tinha 12 anos. E aí viajei muito, até com Patativa do Assaré, que ia muito a Arcoverde e que tinha a mesma função que eu tinha: de declamador. Só que eu recitava "Ispinho e Fulô" e versos dele e de outros cantadores, de Chico Pedrosa, de Zé da Luz. E ele recitava os dele. Isso eu fiz até os 14 anos, quando comecei a fazer teatro, que já foi outro momento de existência, que me estimulou muito a criação, a inventividade. Aí deu no show Cordel do Fogo Encantado. E sempre estudando. Eu só deixei de estudar agora, eu tranquei o curso de Letras.

Que diabo de Cordel do Fogo Encantado é esse, afinal?

Lirinha- (risos). Olha, quando a gente colocou esse nome, Cordel, não era uma homenagem à literatura. Era um sinônimo de história. Era como se fosse a história do Fogo Encantado, a história do Pavão Mysteriozo... E o fogo, um dos mais representativos elementos simbólicos da nossa existência, por causa da seca, das fogueiras de São João, dos candeeiros, a purificação, o símbolo de transformação do fogo, tudo isso. E o encantado são esses mistérios tão falados existentes entre o sol e a Terra, essas coisas da visão apocalíptica e mística que o espetáculo aplica.

Você acredita que essas influências que você vivenciou, ao deixar a cantoria, a escola, a mídia, o teatro, a música, servem de paradigma para essa geração do interior nordestino, que pouco valoriza essas tradições?

Lirinha - Eu acho que essa poesia continua presente na nossa vida, nas nossas atitudes, na nossa região. Embora hoje, a cada dia que passa, as coisas que acontecem no mundo vão encaminhando toda uma população a um pensamento único. Então, em princípio, essas manifestações acabam ficando bastante afastados dessa minha geração. E eu acho que o Cordel do Fogo Encantado, com a sua forma de expressão, às vezes traz uma sensação de identificação para essa meninada. Esse trabalho poderá desenvolver uma curiosidade maior em relação a isso aí. Eu acho que os ouvidos estão abertos para o que pode ser escutado. Agora, quando as coisas desaparecem do ouvido do ser humano, quando elas ficam no baú de pesquisadores, fica realmente complicado cobrar um retorno de uma população cada vez mais ligada à multimídia, a uma comunicação rápida e colorida.

Que "Palhaço" é esse?

Lirinha- "Palhaço do Circo sem Futuro" é uma metáfora que a gente faz com a nossa condição nesse momento. O palhaço seria o ser atuante desse circo que seria esse mundo que a gente vive ou um mundo imaginário, não importa. O ser atuante que não pára o espetáculo, que pode estar ocorrendo o que for, a mulher doente, a filha morta, mas ele tem que entrar em cena. Ele é um ser fundamental para a sustentação do circo, percebendo que o fim, na verdade, é um recomeço de outra coisa. Isso surgiu porque a gente queria fazer algo fundamentado na tragédia grega no espetáculo. Na tragédia grega, os autores começam a expressar seus sonhos, mas no final acaba com Deus comandando tudo. Então, a gente utilizou a idéia da tragédia e compôs a música tema do disco que diz assim: "Sou o palhaço do circo sem futuro/um sorriso pintado a noite inteira/o cinema do fogo/numa tarde embalada de poeira/e a lona rasgada no alto/no globo, os artistas da morte/e essa tragédia que é viver/e essa tragédia/tanto amor que fere e cansa". E o "sem futuro" é um olhar dentro dessa ausência de perspectiva em relação ao nosso destino. Seria uma idéia de uma representação de uma condição vivida por nossa geração, nessa grande confusão.


Mais Entrevistas