PRÊMIO RIVAL - Só música independente



(29/08/2002)

Uma noitada em homenagem à música brasileira tomou o palco do Teatro Rival, no Rio de Janeiro, na última terça-feira. Foi a entrega do I Prêmio Rival BR de Música, parceria entre o teatro de propriedade da atriz Ângela Leal, a Petrobras Distribuidora e a Prefeitura do Rio de Janeiro. No encerramento, uma homenagem a um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira pré-bossanovista, o cearense Humberto Teixeira (1915-1979)

Na platéia, era um deleite só. Muito menos pela boca-livre oferecida, do que pelo nível da disputa, marcada por uma reverência aos artistas "independentes". E claro, pela qualidade do espetáculo, que também levou ao deleite o público que ficou do lado de fora, na Cinelândia. O que se via, também do telão, era a atriz Ângela Leal esbanjando sorrisos e cumprimentos para todos os lados.

Também pudera. Só na platéia, estavam ícones da MPB e da dramaturgia como Luiz Melodia, Moraes Moreira, Francis e Olívia Hime, Daniel Filho, Maria Padilha e Geraldo Carneiro, entre outros. No palco, conduzidos pelos atores Lázaro Ramos e Leandra Leal, filha da anfitriã, desfilaram músicos que chegaram à final após uma peneirada das 250 inscrições.

Entre eles, o pessoal da banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado e o violonista carioca Guinga, premiados, respectivamente, nas categorias Grupo e Compositor. O Cordel pelo seu primeiro álbum, "Cordel do Fogo Encantado" (Rec Beat). Na final, eles foram preferidos diante da Itiberê Orquestra Família e do Nó em Pingo D´água. Guinga e seu "Cine Baronesa" (Caravelas) superaram Francis Hime, por "Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião" e "Meus Caros Pianistas" (Biscoito Fino), além do sambista Nei Lopes, por "De Letras & Música" (Caravelas).

Os demais premiados foram: Elza Soares, que não compareceu para receber o prêmio da categoria melhor cantor/cantora, que tinha ainda como finalistas Zé Renato e Zezé Gonzaga, também presente. "Áfrico", álbum de estréia do cantor e compositor Sérgio Santos, lançado pela Biscoito Fino (que bateu outros dois lançamentos da gravadora, "Sinfonia do Rio de Janeiro" e "O Samba é Minha Nobreza". Este, um álbum produzido por Hermínio Bello de Carvalho, com o qual ele venceu a categoria de produtor artístico.

No mais, prêmios ainda para Paulo Sérgio Santos Trio, pelo CD "Gargalhada" (Kuarup), que passou sobre Hamilton de Hollanda e o Quarteto Maogani; para o Jongo da Serrinha, em um álbum independente que venceu Riachão e Marcelo Vianna na categoria - Resistência; e ainda para Zeca Pagodinho e sua Escola de Música de Xerém, na categoria Atitude, desbancando a Biscoito Fino e a Kuarup, no ano seu 25° aniversário. O júri foi presidido pelo compositor Fred Góes e formado por Geraldo Carneiro, Moraes Moreira, Sergio Cabral e Tárik de Souza.

Zeca Pagodinho foi o mais aplaudido da noite, no show em homenagem a Humberto Teixeira, que teve a apresentação estilo "discurso improvisado" da filha do compositor cearense, a atriz Denise Dummont. Mesmo que ele tivesse ensaiado uma certa dor de cabeça à banda, que contava com o baixista cearense Jorge Hélder, e a Wagner Tiso, diretor musical do show, que será lançado pela Biscoito Fino. "Sou que nem o Romário, não gosto muito de treinar". O show teve ainda as participações de Sivuca, Carmélia Alves, Cordel do Fogo Encantado, Rita Ribeiro, Gilberto Gil, Lenine, Fagner e Elba Ramalho, que cantou três outras parcerias entre Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga: "Paraíba", "Assum Preto" e, com os demais, "Assum Preto", encerrando a noite.

Para Wagner Tiso, a homenagem a Humberto Teixeira foi um reencontro com a sua infância e com o início da sua trajetória musical. Em entrevista ao Caderno 3, o músico mineiro explicou que a "Sinfonia do Café" (tema de Teixeira, que ganharia música de Lírio Panicalli) era o prefixo do Cine Ouro Verde, em uma homenagem à principal riqueza agrícola de Três Pontas. "Depois, quando cheguei ao Rio, por volta de 65, toquei muito ´Deus me Perdoe´ (música de Lauro Maia), nos bares . Todo brasileiro da minha idade ouvia Luiz Gonzaga. Então, tentei fazer uma homenagem a Humberto, sem perder a identidade, aplicando alguns violoncelos e uma base rítmica, algo meio armorial, o que não é muita novidade".

Henrique Nunes - Da Editoria do Caderno 3
O repórter viajou ao Rio a convite da gravadora Biscoito Fino


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