Fogo Encantado lambe os céus da Europa
Frankfurt, Alemanha - A banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado esteve de passagem recentemente pela Europa em sua
primeira turnê internacional, mostrando o repertório de seu comovente álbum de estréia, que saiu no Brasil em produção
independente pelo selo rEc bEat. O quinteto formado por Clayton Barros, Emerson Calado, Nego Henrique, Rafa Almeida e
Lirinha surpreendeu os cerca de quatrocentos espectadores que pagaram ingressos para acorrer à concha acústica do
Palmengarten (o Jardim Botânico de Frankfurt) na tarde de 14 de agosto, para assistir a mais um show ao ar livre do
projeto «Summer In the City». O concerto era o último de uma série de apresentações do Cordel do Fogo Encantado, que
passou pela Bélgica ( mais especificamente pelo prestigiado festival Sfinks ), pela França (Paris), onde a banda fez
seis shows, e pela Alemanha, com o grupo tocando nas cidades de Lörrach, Berlim e Frankfurt, totalizando 5 shows e duas
workshops para o público germânico.
O concerto no Palmengarten não podia ter sido mais radiante. O sol se manteve flutuando muito acima dos arranha-céus do
centro financeiro da Comunidade Européia, abençoando lá embaixo os cinco músicos que vinham de muito longe para levar um
som que tratava de um outro planeta. Lirinha, Clayton e Emerson lá do sertão pernambucano, saídos da cidade de Arcoverde,
com cerca de 70 mil habitantes. Rafa e Nego Henrique, do Morro da Conceição, em Recife, a cidade-mangue onde se dá o
fenômeno biológico do nascimento de caranguejos com cérebros (leia mais a respeito nos cadernos de cultura). Ornamentado
com três painéis de motivo rústico presos como móbiles no teto, o palco parecia um pouco pequeno para o Cordel arrepiar
com sua percussão poderosíssima e todo o efeito cênico que a banda tem na bagagem. Bombo de macaíba, zabumba, surdo, caixa
e pandeiro, o Cordel do Fogo Encantado provou aos alemães porque a banda fez por merecer Naná Vasconcelos como produtor de
seu primeiro álbum e seu maior entusiasta.
Não fosse a confusão bíblica na Torre de Babel, que teria gerado o aparecimento dos milhares de idiomas espalhados pelo
mundo, e o público em Frankfurt teria entendido a extraordinária força poética dos textos do Cordel do Fogo Encantado.
Palavras da lavra da principal estrela do grupo, o cantor, poeta e ator Lirinha, de 24 anos, figura algo franzina, mas que
cantando com a mesma determinação messiânica típica de tantos mitos nordestinos, se agiganta frente àqueles que ouvem a sua
voz esgarçada, mas potente. «A bença Manoel Chudu/ O meu cordel estradeiro/ Vem lhe pedir permissão/ Pra se tornar
verdadeiro». Manoel Chudu este, que como Zé da Luz, Ciço Gomes, João Paraibano e Ivanildo Vilanova, dentre outros, tem
também alguns de seus versos populares incorporados à performance impressionante do Cordel do Fogo Encantado. Textos de
tamanho lirismo e felicidade poética que a música só vem para levá-los ainda mais longe.
Segundo Antonio Gutierrez, o Gutie, produtor do Cordel, foi preciso mexer na estrutura do show para a excursão européia.
«Tiramos poemas de cinco, seis minutos por causa da língua, mas a coisa funcionou bem. A banda chegou a tocar para uma
platéia de 5 mil pessoas na Bélgica», comemora ele, que é também o principal responsável pelo Rec Beat, festival que
acontece anualmente na capital pernambucana durante o carnaval. Lirinha era outro que não escondia a satisfação pela
primeira temporada além-mar do Cordel que veio do sertão: «A experiência que colhemos com essa viagem vai nos servir para
abrir novos espaços. Recebemos convites para o grupo voltar no ano que vem, mas isso não faria sentido se só estivermos
incluídos em festivais étnicos», percebe o cantor e principal compositor do Cordel.
Outra meta da banda é encontrar um bom selo europeu que lance o cd no continente. Gutie fez contatos interessantes, mas
nada que garanta que o disco chegue às lojas da Europa ainda este ano. Mas o Cordel do Fogo Encantado está mais do que
pronto para ganhar a terra natal e o estrangeiro. Como atesta Prince Vasconcelos Dubois, o mestre Naná, a arte da banda
«é uma música que o Brasil precisa ouvir com atenção. As pessoas vão sentir falta de instrumentos convencionais, mas a
força do Cordel do Fogo Encantado está na poesia e formação percussiva, com ritmos fora dos clichês».
Felipe Tadeu
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