NOVO ESPETÁCULO - Cordel do futuro desencatado



(18/10/2002)

Em 97, o pequeno teatro de Arcoverde, no interior de Pernambuco, verteu-se no palco da história do Fogo Encantado. Ou melhor, do Cordel do Fogo Encantado. Um espetáculo poético, teatral e musical que deu origem a um dos grupos mais festejados da atual cena musical nordestina, liderado pelo pandeirista Lirinha e formado ainda pelos percussionistas Emerson, Nêgo Henrique e Rafa Almeida e pelo violonista Clayton. Nas noites de hoje e de amanhã, o Cordel do Fogo Encantado apresenta seu novo espetáculo "Palhaço do Circo sem Futuro", no Anfiteatro do Centro Cultural Dragão do Mar. As apresentações fazem parte do Projeto MPB Petrobras e terão suas arrecadações completamente divididas entre o Lar Beneficente Clara de Assis, o Conselho Comunitário do Conjunto São Francisco e o Centro Juvenil Dom Bosco. Na abertura, outro grande show: a música eletrônica de poética alencarina do cantor e compositor Idson Ricarte

O "fogo" vem de elementos fortemente presentes no imaginário dos nordestinos, como as fogueiras de São João, as velas dos peregrinos e o sol. Os "encantos" vêm "dos mistérios entre o Sol e a Terra", que incluem uma visão apocalíptica, mística, e até a beleza da poesia oral nordestina. Se a literatura de cordel já disseminou inúmeras histórias, como a do Pavão Mysteriozo, agora essa tradição imaginária e comunicativa ganhou uma nova concepção, através da música destes rapazes.

Na verdade, muito mais fundamentada na cantoria de viola, do que propriamente nos cordéis, mais lembrados na hora de dar os extensos títulos das músicas. Depois do lançamento do primeiro disco, em 2000, que ganhou, em agosto, o Prêmio Rival BR de melhor álbum independente de grupos musicais, o Cordel se prepara para o lançamento de "O Palhaço do Circo sem Futuro", novo álbum independente que integra poemas de cantadores como João Patriota, Manoel Filó, Manoel Chudu e Cancão com "sensações" experimentadas pelo Cordel, mesmo vivendo há alguns anos em São Paulo.

Sensações que se identificam menos com o resgate, e mais com a elaboração de novos preceitos musicais e poéticos, de acordo com a verve descompromissada desses garotos. "Existe uma idéia, que é fruto do teatro, de onde o grupo nasceu, que é de colocar para fora, na hora que está compondo, mais os sentimentos presentes naquele momento do que uma fórmula tradicional, um ritmo tradicional ou um som tradicional", explicou o líder do Cordel, o cantor e compositor Lirinha, em entrevista feita pelo Caderno 3 nesta quarta-feira, por telefone.

Além da cantoria, as músicas do Cordel do Fogo Encantado transgridem batidas mais rockeiras, além de reisados, emboladas, sambas de coco e até o toré dos índios Xucuru, das proximidades de Arcoverde. Diversidade presente em canções como "A chegada de Zé do Né na Lagoa de Dentro" (Lirinha - Clayton Barros - Buguinha), "Poeira - ou tambores do vento que vem" (Lirinha - Clayton Barros), "Profecia - ou testamento de Ira" (Lirinha - Clayton Barros), "Boi Luzeiro - ou a pega de violento, vaidoso e avoador" (Lirinha - Clayton Barros) e "Chamada dos santos africanos" (Lirinha)

Tudo muito acústico, embora o próximo disco traga alguns efeitos de guitarra. "Mas no palco não, vamos continuar acústicos", garantiu Lirinha, empolgado com a possibilidade de mostrar as novas músicas, estreando o espetáculo em Fortaleza. "Não vai ter mais músicas como ´Poeira´, apesar de termos feito o espetáculo anterior só duas vezes, em Fortaleza. Porque tínhamos que montar o espetáculo novo, que vai ser visto em primeira mão aí".

O primeiro disco foi gravado em Recife, com produção de Naná Vasconcelos, sobre composições feitas em Arcoverde. Já o novo álbum reflete "uma visão de quem se retirou da terra original". Assim, "Palhaço do Circo sem Futuro" seria uma "metáfora do ser que vive nesse mundo, nesse círculo, que não pára o espetáculo, pode estar ocorrendo o que for, mesmo diante de um certo desencanto diante dessa grande confusão ocidental, com tantas dificuldades de visão do futuro. O palhaço é um ser fundamental para a sustentação desse circo, que não deveria ser sem futuro e nem é, até porque o fim é sempre o recomeço de outra situação".

Apesar dessa ressalva dialética final, uma certa visão mais pessimista perpassa o álbum, como numa tragédia grega dominada pelos desígnios divinos. "Sou o palhaço do circo sem futuro/um sorriso pintado à noite inteira/o cinema do fogo/numa tarde embalada de poeira/e a lona rasgada no alto/no globo, os artistas da morte/e essa tragédia que é viver/e essa tragédia/tanto amor que fere e canta", diz a faixa-título. É mais ou menos por aí o futuro do cordel musical pernambucano.

Henrique Nunes - Da Editoria do Caderno 3


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