Cordel do Fogo Encantado transforma raízes
VALMIR SANTOS
da Folha de S.Paulo
(27/02/2001)
Sentados sobre o meio-fio de uma das ruas de paralelepípedos do Recife Antigo, os rapazes do Cordel do Fogo Encantado têm
dificuldade em conceituar seu trabalho. E isso é uma virtude.
A mais nova revelação da música pernambucana, que lança seu primeiro CD, independente, com produção de Naná Vasconcelos,
vem de Arcoverde, no sertão (a 252 km de Recife), e estende uma ponte ao morro da Conceição, na zona norte da capital do
Estado.
No último domingo, o Cordel do Fogo Encantado fechou a terceira noite do festival Rec Beat, cuja programação, com novos
nomes da cena pernambucana e nacional, termina hoje.
Trata-se do mesmo palco, montado na rua da Moeda, no Recife Antigo, onde o grupo estreou oficialmente em fevereiro de 99.
Daí a empatia do público, que já conhece as letras de cor.
"Não fazemos a mera reprodução dos ritmos de raiz", afirma o vocalista e compositor Lirinha, 24. A cantiga de coco, o
reisado ou o trupé (batida dos pés no chão que lembra tribos indígenas), por exemplo, manifestações tradicionais em
Arcoverde, com as quais Lirinha e o violonista Clayton Barros, 24, convivem desde a infância, são evocadas não como
resgate, releitura ou afins. "Isso tudo é muito frágil", diz Lirinha.
O mote é a transformação. Como os fenômenos da natureza que ancoram em suas letras, o Cordel dispensa a regra, o
raciocínio, e se deixa levar pelo instinto, pelo que é inerente a cada um dos seus cinco integrantes.
"A gente coloca para fora o que o coração está pedindo", diz o
percussionista Emerson Calado, 21, sem medo do clichê. Os também percussionistas (e primos) Nêgo Henrique, 23, e
Rafa Almeida, 17, moradores do morro da Conceição, comunidade predominantemente negra, complementam a formação do grupo.
Os ritmos africanos, já dos tempos dos shows no sertão, consolidaram-se com os tambores de Nêgo e Rafa. Desde crianças,
eles frequentam terreiro de umbanda da avó. Dominam instrumentos como gonguê, bombo de macaíba,
djambê, ilu, congas e caixa.
Ainda tateando conceitos, Lirinha fala sobre a "visão profética do mundo" com a qual impregna suas letras, como nos versos
de "Profecia Final": "Herdeiros do fim do mundo/ Queimai vossa história tão mal contada".
Seus companheiros brincam com (mas confirmam) uma constatação do público: no palco, Lirinha parece em transe, como se
"baixasse um espírito" (sugere Nêgo). Lirinha vê reciprocidade. "Nas apresentações, nosso desejo é tirar as pessoas do
normal, mas pela própria energia da música, sem pretensão mística."
Nos shows, recita versos/causos seus e de outros, como dos paraibanos Zé da Luz e Chico Pedrosa. Aliás, o nome do grupo
expressa a oralidade dos cordelistas.
A afirmação da identidade do cordel, respaldada sobretudo pelo público e por Naná Vasconcelos, ajuda a entender a sua
não-associação imediata com o braço musical do movimento mangue beat, catalisado por Chico Science & Nação Zumbi, Mestre
Ambrósio e Mundo Livre S/A.
O determinismo geográfico pode ser um ponto de partida. "O mangue beat tem uma perspectiva ligada ao caos da cidade;
a gente vem do interior", diz Clayton.
"Apesar de não fazer parte direta do mangue beat, estamos integrados a ele, sim. Foram essas bandas que abriram o mercado,
que deram uma dimensão profissional para os músicos de Pernambuco", afirma Lirinha.
O CD com 18 canções foi lançado primeiro em Arcoverde, em dezembro passado, depois em Recife, no início do mês. Houve uma
tiragem promocional para a revista "Trip", com dez faixas.
Os próximos shows do Cordel em São Paulo serão nos dias 18 e 19 de abril, no Sesc Pompéia, com participação de Naná
Vasconcelos. Em breve, acontecerá a primeira turnê pela Europa.
"Acho que a língua mais falada no mundo é a da música", conclui Clayton.
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